domingo, 29 de junho de 2014

Clima da Copa na Vila Madalena espanta moradores, assusta lojistas e cria conflitos


Imagem: Tom Green
Carros de som dignos de baile funk e ambulantes que fornecem bebida muito depois de os bares servirem a saideira fizeram da Vila Madalena uma micareta que adentra a noite. A festa só acaba ao alvorecer, quando chegam os jatos d'água do caminhão de limpeza da prefeitura. 

O conflito entre boemia e moradores, que é antigo, foi elevado à décima potência com a Copa. Tem gente há dias sem dormir, que foi dormir na casa de parente, alguns com vontade de "sentar o porrete" na turma da festa. Fora as lojas que decidiram não arriscar e fecharam as portas. 


"Eu liguei para a polícia umas dez vezes, implorei, mas nada. O barulho só acabou quando o pessoal da limpeza chegou, umas 5h30", diz Juliana, com os olhos fundos de quem não dorme há algumas noites. "A gente sente trepidar dentro de casa." 

Moradora da rua Aspicuelta desde que tinha nove anos, Maria Justos, 90, diz estar à beira da loucura. "Estou ficando tantã da cabeça com esse barulho. Por que você não vem aqui dormir um dia para ver o que é bom para a tosse?" 

O problema não é só o barulho. A fotógrafa Aline Lata, 25, moradora da rua Luís Anhaia, reclama do xixi e dos casais que fazem sexo na porta de sua casa. "Os policiais vão embora após o jogo, não temos a quem recorrer. Já vi moradora falando que queria sentar o porrete. É horrível, mas dá vontade de bater nas pessoas. Já passou pela minha cabeça jogar cocô." 

A advogada Evian Elias, 55, desistiu da Vila temporariamente. Mora desde segunda (23) no apartamento cedido por um amigo, no Alto de Pinheiros. "Depois que os bares diminuem o som, à 1h, o ruído segue. Aí, por volta das 5h, tem o barulho dos garis catando vidro e depois o caminhão de jato d'água. Não tem fim". 

O incômodo com a situação levou moradores à reunião do Conselho Participativo de Pinheiros na terça à noite (24). O subprefeito Angelo Salvador, 53, estava presente. 

Ao ser questionado sobre falta de fiscalização de som e venda de bebidas, foi sincero: a prefeitura não esperava essa concentração de pessoas na Vila. "São 50 mil pessoas. A situação de repressão de ambulante no meio da multidão é complicada, pode haver hostilidade". Agora, diz, dois PMs acompanharão cada fiscal, para garantir a segurança. 

PORTAS FECHADAS 

Para muitos lojistas, a multidão de pessoas que tem invadido a Vila Madalena não significou aumento dos lucros. A designer de sapatos Juliana Bicudo, 35, decidiu fechar a loja com seu nome na rua Girassol por dez dias para evitar a multidão. "Dei férias coletivas para as minhas três funcionárias. Esse não é um público que vem para comprar", diz ela, que reabriu na terça-feira (24). 

Na rua Harmonia, nem a loja com apelo brasileiro teve lucro com a chegada dos turistas. A Projeto Terra, de artesanato com madeira, teve queda de 30% no movimento com a Copa. 

Na madrugada da terça-feira (24), a galeria de arte Urban Arts, na rua Aspicuelta, sofreu um arrombamento. A loja teve a vitrine quebrada e foram levados computador, dinheiro e celulares. "Ninguém estava esperando que a concentração viesse para a Vila. A prefeitura colocou polícia, banheiro químico, mas não é o suficiente", afirma Marcelo Fassur, gerente da galeria. 

QUEM FOI MADALENA 

Diz a história oral que o bairro fazia parte de um local conhecido, no começo do século 20, como sítio do Rio Verde, cujo dono era um português, pai de Madalena, Beatriz e Ida. 

As três filhas teriam herdado as terras, dando origem a três vilas com seus nomes. Segundo a prefeitura, o bairro surgiu primeiro como Vila dos Farrapos, em 1910. Só nos anos 1950, as ruas de terras da região cederam lugar ao asfalto.

Veja também:

Regiane Teixeira
Vanessa Correa
Folha de S. Paulo
Editado por Folha do Povo
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