segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Policial que apreendeu helicóptero de senador com cocaína fala sobre o caso


Imagem: Reprodução
Já virou até marchinha de carnaval, mas o caso está longe de ser solucionado. O helicóptero da Limeira Agropecuária, do deputado Gustavo Perrella (SDD-MG), encontrado com 450 quilos de cocaína, virou notícia desde o dia 24 de novembro de 2013. Uma ação conjunta da Polícia Federal e Militar apreendeu o conteúdo numa fazenda em Afonso Cláudio, no Espírito Santo, e, desde então, as investigações desdobram-se conforme os depoimentos dos pilotos e as descobertas da perícia.


Gustavo e seu pai, o senador Zezé Perrella (PDT-MG), foram inocentados pela Polícia Federal por qualquer participação no tráfico.  O traslado da droga, que teria vindo do Paraguai segundo registros do GPS da aeronave, não teria sido encomendado pelo patrão, segundo o piloto Rogério Antunes, preso em flagrante durante a ação.

Com o Antunes, também foram presos no ato da apreensão o co-piloto Alexandre José de Oliveira Júnior, o comerciante Róbson Ferreira Dias e Everaldo Lopes de Souza. Os dois últimos esperavam o helicóptero na fazenda e carregavam um VW Polo com a droga. Segundo Gustavo Perrella, Rogério pegou o helicóptero sem autorização para prestar serviços para outra pessoa.

Em registros telefônicos, mensagens comprovam que a ação era desconhecida para Perrella. A história, que parece nebulosa para uns e já resolvida para outros, ganha novos contornos quando a investigação e detalhes ainda não divulgados pela mídia são explicados minuciosamente.

Em entrevista a Roger Franchini, do site Vice, o agente federal Rafael Rodrigo Pacheco Salaroli, que acumula 21 anos de carreira e participou da operação, contou detalhes das investigações e da preparação para o flagrante. Pacheco disse que a P2 da PM do Espírito Santo (órgão de policiais descaracterizados e viaturas disfarçadas) deu conta de movimentação estranha na região quando uma fazenda foi comprada num valor muito acima da média do mercado. O local, avaliado em cerca de R$200 mil, foi adquirido por R$500 mil à vista. Apesar disso, a fazenda não foi ocupada e os donos não se identificavam como atuantes no setor da agricultura.

Pacheco informa que soube, posteriormente, que o contrato firmado era como um ”de gaveta”. Não existiam registros porque o comprador deu R$100 mil e daria os outros R$400 mil após 15 dias. O comprador, Élio Rodrigues, um empresário de Vitória, apesar de confirmar as informações obtidas até o momento, não esclareceu seu possível envolvimento com o tráfico. Já a apreensão em flagrante foi feita graças à dica de um vaqueiro. “Olha, os caras chegaram aí, compraram a fazenda, se apresentaram como donos, fizeram churrasco durante dois dias inteiros e ficaram de voltar aqui no dia 23″, teria dito.

Logo, a PM e a PF instalou-se por seis ou sete dias, segundo Pacheco, na região de Brejetuba, revezando entre si num acampamento no meio do mato e na cidade. Na sexta-feira, dois dias antes da apreensão, os policiais notaram movimentação estranha no local.  Na hora do flagrante, Pacheco conta que o piloto já avisou ser funcionário de Perrella. “Ele disse: Olha, eu piloto para o senador Perrella, ele não sabe que eu estou aqui e vai ficar muito ruim pra mim”. O colega que estava na condução disse: Foda-se, isso é um problema seu, não meu”, relembra.

O agente também afirmou que a apreensão foi tranquila, o que, segundo ele, já era esperado. Em terra, esperavam um garoto da área, Everaldo, e Robson, um carioca. Novamente, Pacheco afirma, condizendo com o relatório da PF, que o envolvimento dos Perrella está descartado. Esta conclusão se deve, principalmente, a um conjunto de mensagens de celular esclarecedoras entre o piloto do deputado e outro piloto.

“Eles conversam sobre o pagamento das horas ao deputado, que acertaram ser apenas 4h, visto que ele disse que iria até São Paulo e voltaria. Seriam dois mil reais a hora. Ocorre que já estavam voando há quase 28h e combinam então de enganar o deputado. Ou seja, o deputado pode ter envolvimento em ilícitos? Pode. Mas com o conteúdo destas conversas fica absolutamente excluída qualquer chance de ligá-lo a este evento”, pontua.

Ainda sobre o envolvimento dos Perrella com as drogas apreendidas, Rafael é taxativo. ”Respondi uma pergunta um dia desses sobre o deputado [Gustavo Perrella, dono do helicóptero apreendido]. O pessoal falou: ‘Porra, a cocaína é do deputado porque o helicóptero é dele!’. Eu falei: ‘Caralho, se eu pedir seu carro emprestado, e encher ele de cocaína, você é o traficante?’. Ou seja, não pode ter esse atropelo, isso atrapalha. A ânsia de querer inflar uma notícia, julgar alguém, colocar um senador, um deputado no rolo… Não tenho medo de político não, já prendi vários. Tô cagando pra esses caras, quero que se fodam. Mas quem vai sentar na frente do juiz e dizer ‘Foi ele!’ sou eu, serão meus pares. Não pode ter essa pressa não, velho”.

Apesar de várias evidências já confirmadas e tantas outras hipóteses já descartadas, ainda existem dúvidas quanto ao caso. O dono de uma operação amadora (pelo alarde com o qual chegaram à pacata comunidade e a movimentação destoante do cotidiano da região) poderia pagar R$ 500 mil por uma fazenda? E porque comprar esta fazenda, neste valor, sem nenhum fim específico?

O próprio policial federal entrevistado estabeleceu uma série de indagações: “Qual a ligação do dono da fazenda com o helicóptero com entorpecentes que pousou dias depois de sua compra em seu terreno? De quem é a droga? Quem realizou as transações financeiras? Quem forneceu a droga?” As perguntas são muitas e provavelmente várias delas não serão respondidas.

À época da apreensão, um Farinhaço foi realizado nas escadarias da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, em rechaço ao possível envolvimento de Gustavo Perrella na ação. Já o Carnaval de rua de Belo Horizonte deste ano contará com uma marchinha inusitada: a marcha do Pó Royal, que se vale de trocadilhos para criticar o caso. 

Brasil Poder
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